Caderno 2

Por, Bairros de Maceió - 17/01/2018

Andréa Laís - Diamante em lapidação

Andréa Laís conseguiu imprimir as características de uma intérprete fora da curva

DIAMANTE EM LAPIDAÇÃO

Para avaliar qualquer expressão artística, teremos a contrapartida do que nos consente a própria arte: a faculdade de inúmeras abordagens sobre o objeto apreciado. No caso específico, é o que nos propõe uma jovem e talentosa cantora, Andréa Laís, com o seu álbum de estreia, Solar, fruto de um financiamento coletivo. Mas será que é mesmo ela quem nos propõe o conteúdo da apreciação? Bem, poderemos saber a partir do avesso, posto que o avesso é o lado mais verdadeiro, a versão mais crua das coisas e gentes, e quase sempre só é mostrado aos que merecem .

Como excelente intérprete que é, Andréa Laís fez suas primeiras aparições, nos palcos aquarianos, pelas mãos de alguns compositores já consagrados, como Basílio Seh e o antológico Deyves José. Naturalmente, o seu talento ficaria logo evidente para todos. Com algumas composições do Deyves, ela construiu uma brilhante carreira de participações vitoriosas em alguns dos festivais de música locais. Contudo, foi Junior Almeida quem a trouxe definitivamente para ribalta, pela sua visão bem peculiar e até mercadológica de por foco sobre algumas intérpretes em início de carreira. Essa é uma estratégia arguta, louvável e bem aos moldes de “caetanear o que há de bom”, onde a reciprocidade acontece por merecimento e como moeda de troca musical.

Ocorre que, em Solar, essa reciprocidade beira o ápice, que poderia ter sido naturalmente mais compreensível, se o álbum tivesse outro título, mais adequado ao percentual do repertório. Das dez faixas de Solar, cinco são de júnior Almeida – e mais uma, Tarde do Sol, de Gabriel Almeida. Júnior também assina a direção artística, o que significa, entre outras coisas, escolha de repertório e influência direta nos arranjos. Não seria demais supor, posto que fica no ar, que Andréa Laís não teve lá muito alvedrio, com exceção das quatro faixas restantes, que compõem o álbum.

Todavia, essas questões relativas ao avesso podem até passar ao largo do resultado alcançado em Solar. Primeiro, porque, embora interpretar basicamente um único compositor, seja como bater na mesma tecla, a performance de Andréa Laís conseguiu imprimir as características de uma intérprete fora da curva, sobretudo em releituras bem interessantes, para A Voz do Coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos) e Verde (Júnior Almeida). Por outro lado, obteve-se a unidade de um repertório consistente, pela obra de um compositor experiente, que atribuiu musculatura e singularidade ao trabalho. Acontece que a quase hegemonia no repertório, também foi capaz de revelar um paradoxo sutil.

O álbum abre com um toque de caixa, em tom quase marcial, para o arranjo da bela e causticante canção Ovo (Marcelo Marques e Gustavo Gomes), com tensão suficiente para criar a expectativa do esperado momento solar. No entanto, a partir da faixa dois, A Flecha (Júnior Almeida), o repertório segue denso, um tanto melancólico, em tons gris, com a bateria o tempo todo muito na cara, na frente de tudo, acentuando o tempo forte das canções (ou seria apenas uma opção equivocada de mixagem?). Nessa atmosfera, acontecem relances tímidos de claridade, como na faixa três, A Voz do Coração, e faixa cinco, Tarde do Sol (Gabriel Almeida), até chegar à faixa oito, Só Não Gosto de Maltrato (Júnior Almeida e Fernando Fiúza), um reggae praieiro, que, só daí por diante, começa a querer justificar o título do álbum.

Considerando-se que ao Sul do Equador e, também, musicalmente, solar significa luminoso, vibrante e um bom tanto de alegria, o álbum Solar foi econômico nessas sensações. A não ser que o solar pensado para o projeto tenha a ver com o plexo solar e os seus significados metafísicos, ou então pela simples citação do sol em algumas músicas. Em sendo assim, o paradoxo citado perde força e passa a ser um mero ponto de vista. O que, aliás, em última análise, caberá ao fruidor a premissa dessa e outras impressões sensoriais.

Se fosse um vinho, Solar estaria na prateleira dos tintos encorpados, para noites com lareira e uma boa companhia. Não seria um tinto de corpo leve, ou um espumante, para refrescar as tardes de verão, por mais solar que se intitule ser. E é exatamente essa condição de consistência, que o torna interessante e muito me apraz, em vinhos e canções.

Um diamante bruto se lapida, para que seja revelada a perfeição oculta, a beleza implícita à sua natureza, e não apenas pela moldagem pura e simples do lapidador. Andréa Laís é um diamante em estado de lapidação. Ainda tem muito de solar para acontecer. O primeiro passo foi dado e ofertado pela sua doçura e talento iluminados!

SERVIÇO
Solar, Andréa Laís
Disco físico: à venda na Igreja Batista do Pinheiro, Zey Cabeleireiro e My Tattoos
Preço: R$ 20
Plataformas digitais: Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube

Ouça aqui o álbum completo

Publicado na quinta-feira, 11, pelo Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas.

 

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Curiosidade

Treze vezes vencedor do prêmio Notáveis da Cultura Alagoana - Prêmio ESPIA.

"Uma cidade que não tem memória é uma cidade sem alma. E a alma das cidades é sua própria razão de ser. É sua poesia, é seu encanto, é seu acervo. Quem nasce, quem mora, quem adota uma cidade para viver, precisa de história, das referências, dos recantos da cidade, para manter sua própria identidade, para afirmar sua individualidade, para fixar sua municipalidade." Extraído do livro Maceió 180 anos de história 5 de dezembro de 1995.

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