Caderno 2

Por, Bairros de Maceió - 09/04/2018

É pra Jah!

Seis jovens músicos alagoanos se uniram e criaram a banda Freedom Songs, para manter mais vivo do que nunca o reggae, considerado o terceiro ritmo jamaicano mais importante da década de sessenta

Publicado quinta-feira, 5, pelo Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas / Por: Mácleim Carneiro

É PRA JAH!

“Freedom Songs”, em livre tradução, significa canção da liberdade ou qualquer outra variação que combine as palavras independência e autonomia, com canção, música, canto, enfim... Foi com esses significados e propósito, que seis jovens músicos alagoanos se uniram e criaram a banda Freedom Songs, para manter mais vivo do que nunca o reggae, considerado o terceiro ritmo jamaicano mais importante da década de sessenta, precedido pelo Rocksteady, que, por sua vez, teve origem no Ska.

A opção da rapaziada da Freedom Songs não deve ter sido, nem poderia sê-lo, uma escolha banal, pois o reggae tem suas exigências e inúmeras peculiaridades seletivas. A começar pelo seu próprio universo, onde existe uma série de subgêneros que diferenciam a “pegada” de cada som. A linha que os diferencia é tão tênue, que nem sempre a distinção entre eles é fácil ou precisa. Aliás, na real, nem é necessária, na hora de sentir a emoção que o reggae provoca em quem interage com ele. Porém, saber sua história sempre será um pré-requisito, para identificar um estilo ou gênero musical, além, claro, das características estruturais – ritmo, métrica, instrumentos (e sua função específica), forma de cantar, assunto das letras, entre outros aspectos.

Quem sabe, ao final deste escrito, eu consiga chegar à conclusão de qual é o estilo, ou melhor, a qual subgênero do reggae se dedica a Freedom Songs? O fato, é que, eles foram além de todas essas nuances do reggae e agregaram ao álbum um título ainda mais emblemático e repleto de conceitos e até alguns dogmas. Tanto é que, no envelope do disco, a banda faz questão de explicar que Samsara, com o subtítulo “Ciclo das Ilusões”, significa “buscar um religare da humanidade entre o mundo fenomênico e o mundo atual.”

Se religare significa ligar novamente, no sentido de retornar às origens, ou seja, ao criador, além de ser sinônimo de religião, então vamos ao que interessa: criação e criadores. A primeira e boa surpresa encontrada na criação e execução do conteúdo do álbum Samsara, é o esmero técnico na gravação deste trabalho de estreia da Freedom Song. E quando me refiro a esmero, quero apenas dizer: captação adequada, mixagem com bom acabamento, instrumentação coerente, instrumentos e vozes com afinação e execução bem-definidas, enfim, tudo o que é prescrito como sendo cânones e parâmetros profissionais. Às vezes, raros de encontrar em produções independentes, digamos assim, de primeira viagem. E é a própria rapaziada da banda que assina a produção artística do álbum, sinalizando para um cuidado imprescindível com o que estão propondo musicalmente e, evidentemente, com reflexo direto na argúcia do fruidor.

Sabemos que o jamaicano Bob Marley foi um dos responsáveis por levar as ideias de Jah (uma abreviação de Javé ou Jeová, que significa Deus, na religião rastafári) para todos os cantos do mundo. A Freedom Songs, em Samsara, segue a tradição e o álbum é um grande louvor a Jah. Desde sua abertura, com o reggae Forte Guerreiro, cujo refrão é tão somente a palavra Jah, passando pelas demais faixas, até chegar à última, O Caminho, onde o apelo é para que sintamos Jah. Entretanto, também é louvado o amor, como sentimento de harmonia e paz para humanidade (e como isso é urgente e necessário, para o arrefecimento da polarização e maniqueísmo insanos, dos tempos atuais). Encontraremos, ainda, certa preocupação com questões sociais do nosso país, na faixa Inocentes Pequenos. Como já vimos anteriormente, os assuntos das letras, os temas, são pistas para uma possível definição do tipo de reggae que a banda faz. Arrisco dizer que estamos chegando bem próximos de uma definição.

Uma curiosidade bastante interessante, neste trabalho, é utilização de samples com um resultado sonoro extremamente positivo, capaz de confundir, à primeira audição, o que poderia ser um naipe de metais atuando na gravação, quando na realidade se trata apenas de um teclado com um bom sampler e bem-executado. Eis mais uma boa dica: a sonoridade da banda diz muito! Sim, estamos bem perto da resposta àquela interrogação pretérita.

Se dermos um passo lá atrás, para os anos setenta, e lembrarmos que o cover da canção Shot the Sheriff, de Bob Marley, feita pelo Eric Clapton, ajudou a trazer o reggae ainda mais para o mainstream, na chamada "era de ouro do reggae", saberemos que foram dias de glória do roots reggae, também conhecido como reggae de raiz, com seus compassos acentuados na segunda e na quarta batida, além, claro, do uso de linhas de baixo complexas. Pronto! Resolvida a charada! Freedom Songs é reggae de raiz, com as bênçãos de Jah.

SERVIÇO
Sansara, Freedom Songs
Disco físico: à venda no Recanto do Reggae e Zeppelin Bar
Preço: R$ 5
Plataformas digitais: Spotify, Deezer, Google Play, Shazam e YouTube

Ouça o álbum completo com as letras AQUI

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Curiosidade

Treze vezes vencedor do prêmio Notáveis da Cultura Alagoana - Prêmio ESPIA.

"Uma cidade que não tem memória é uma cidade sem alma. E a alma das cidades é sua própria razão de ser. É sua poesia, é seu encanto, é seu acervo. Quem nasce, quem mora, quem adota uma cidade para viver, precisa de história, das referências, dos recantos da cidade, para manter sua própria identidade, para afirmar sua individualidade, para fixar sua municipalidade." Extraído do livro Maceió 180 anos de história 5 de dezembro de 1995.

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