Notícia

Por, Bairros de Maceió - 02/02/2012

RIACHO DOCE - A História da Sereia

conteudo: Engº Vinícius Maia Nobre (*)

    Sempre foi costume dos nossos governantes, mesmo antes de um ano de mandato, trabalhar com rapidez para "mostrar serviço" aos seus eleitores, e, logo que podiam, saíam por aí fazendo festas de inauguração.
    Aproximava-se dezembro de 1987 e o Governo do Estado nada tinha realizado no campo de obras.     Em exercício no Governo, o Vice, Moacir Andrade (o titular estava ausente do Estado) programou então uma comemoração: as "Bodas de Prata" da sereia de Riacho Doce!
    Fiquei sabendo pela imprensa, que no dia 8 de dezembro daquele ano (dia consagrado à N.Sra. da Conceição), com muita pompa, iam festejar os 25 anos da sereia. Era uma clara exploração do sincretismo religioso tão em moda pelo nosso povo.
    Escrevi ao Editor Geral da Gazeta de Alagoas, no dia sete de dezembro de 1987, a seguinte carta:
    “A propósito dos 25 (sic) Anos da Sereia de Riacho Doce, cumpre-me a obrigação de aditar a nota publicada nesse Jornal, edição de cinco de dezembro de 1987, os seguintes esclarecimentos.
    Entre outubro de 1962 e maio de 1963, fui Diretor Geral da então Comissão de Estradas de Rodagem - CER, que executava na época, uma vasta programação rodoviária do Governo Luiz Cavalcante. Uma das obras desse programa era a pavimentação da AL-101/Norte, a estrada litorânea.
    Por força do cargo, encontrava-me quase que diariamente com o Major Luiz fiscalizando os serviços que estavam sendo executados entre Riacho Doce e Saúde.
    O Governador admirava muito o trecho da estrada que mais se aproximava da praia e que passava sobre uma duna, e me pediu certa vez, para fazer um mirante nesse lugar.
    Com poucos recursos que dispúnhamos, achava eu que era um desperdício executar o mirante e fui protelando a sua execução.
    Em 1963, após ter saído da Direção Geral, estava na CER como Chefe do Laboratório Central, o qual tinha como atribuição o controle de qualidade das obras rodoviárias.
    Ao passar pela AL-101 em demanda a Ipioca (o trecho Riacho Doce/Saúde já estava pavimentado), encontrei-me com o Governador em companhia de Abelardo Rodrigues, colecionador de objetos de artes, ilustre pernambucano, que mais tarde, ao falecer, os seus pertences, foram objeto de uma disputa entre o seu Estado e o da Bahia que tentava adquiri-los de seus herdeiros.
    Lembro-me bem das palavras do Governador: “O senhor não quis fazer o mirante, mas agora vou fazê-lo. Apresento-lhe o Abelardo Rodrigues que vai projetá-lo”.Confesso que intimamente me revoltei, pois fui sempre contra a sua construção porque a praia já era bem bonita sem àquele artificio, e, repentinamente respondi-o: “Porque o senhor em vez de um mirante não coloca uma sereia em cima daquelas pedras, ali?” (apontava o lugar no hoje Mirante da Sereia). O major então replicou: "Boa sugestão! O senhor teve essa idéia agora?" Disse-lhe: "Não. Na entrada do porto de Copenhague, existe uma sereia de bronze. É muito bonita!" (conheci-a de fotografia) O Major virando-se para o Abelardo Rodrigues disse: "Projete o mirante e vamos também fazer a sereia”.
    Em seguida discutimos os detalhes de sua execução. Deveria ser feita em partes, oca e seria presa às pedras com concreto, primeiro a sua cauda, em seguida encher-se-ia de concreto os vazios para após serem colocadas as outras partes, tudo durante o intervalo de maré vazante.
    O Abelardo voltou para Recife, mandou o projeto do mirante e contratou o escultor Corbiniano (e não Coriniano, como foi publicado) e nos fins de 1963 (logo a nossa sereia não tem ainda 25 anos como querem festejar), chegou, na sede da CER (rua Cincinato Pinto, atualmente uma série de acomodações do serviço público estadual, inclusive o Serveal) as partes da sereia.
    Era um dia de sol forte de verão quando fui chamado pelo motorista Miguel "Marta Rocha" : "Doutor, venha ver a sereia ! Ela tem a bunda da fulana e os peitos da sicrana!" exclamava, referindo-se aos dotes de duas funcionárias, atualmente aposentadas pelo DER.
    A admiração de todos que acorriam para olhar a sereia sobre a carroceria de um caminhão era para o que caracteriza o estilo de Corbiniano, conhecido por mim quando estudei em Recife, na Escola de Belas Artes : o exagero para determinadas partes da escultura a fim de se ter uma melhor percepção, quando de longe.
    A sereia de Copenhague foi erigida em homenagem ao grande escritor dinamarquês de contos infantis Hans Christian Andersen que, em uma de suas obras de ficção, imaginou um peixe que se enamorou de um príncipe, virou mulher e casou-se com ele. Conta a estória que não viveu feliz pelas saudades que tinha de seu reino e foi castigada virando uma sereia.
    Em 1985, estive em Copenhague, visitei a famosa sereia que serviu de inspiração a nossa e de lá, mandei um cartão com a sua foto para o então Senador Luiz Cavalcante, relembrando tudo o que aqui escrevo.
    Certo de que estou colaborando para o conhecimento de fatos de interesse público, sugiro que a Secretaria de Cultura, caso julgue conveniente, elabore pesquisa nos arquivos do DER quanto as datas exatas dos acontecimentos aqui relatados, pois devem existir faturas de pagamento ao Abelardo Rodrigues e, naturalmente, ao Corbiniano, sem esquecer contudo de ouvir o Major Luiz".
     A carta chegou atrasada. Comemoraram de qualquer jeito. Trouxeram até o Corbiniano, coitado, já bastante envelhecido, sem entender muito daqueles foguetórios!
(*) e-mail: vmnobre@uol.com.br

Publicado na “Gazeta de Alagoas” em 08/12/87

                                                                                            
             
Foto do autor quando de viagem a Copenhague em junho de 1985, tendo ao fundo a famosa sereia que tanto notabilizou Christian Andersen.

                                                          

Escaneado de um cartão postal: a sereia, em bronze, colocada na entrada do porto de Copenhague. Escala natural, portanto bem diferente da nossa que inclusive é estilizada. Anos depois (de 1985), a cabeça da sereia foi retirada e desaparecida por vândalos e mais tarde encontrada. Um desses cartões foi enviado para o Major Luiz.


A sereia parece estar surfando na crista das ondas, mas é na lua cheia que sua cor branca adquire um prateado fascinante, de beleza invulgar
A QUASE QUARENTONA SEREIA -
Fonte: GazetaWeb 09 de Março de 2003

DÍDIMO OTTO KUMMER *

Na parte mais alta dos arrecifes situados em frente à praia do Pratagy (segundo o historiador Paulinho Santiago, significa rio das Tainhas), o General Luís Cavalcante, Governador de Alagoas, de 31 de 01 de 1961 a 31 de 01 de 1966, popularmente conhecido como o “Major”, mandou construir em 1964, uma escultura de quase 4 metros de altura, representando uma sereia que, aliás, ficou logo conhecida como a “Sereia do Major”. Para isso, contratou o artista Corbiniano Lins, afamado escultor pernambucano. A escultura toda feita em concreto e cimento armado, recebeu, na época, inúmeras críticas. De início, pelo custo financeiro, considerado uma exorbitância, quase 700 cruzeiros, que se transformando em real de hoje, talvez desse 7 mil reais. Conclui-se que, praticamente, o artista pernambucano deve ter tomado prejuízo na realização da obra. Críticas, também, foram feitas por conta das feições da escultura. Considerada de mau gosto, muito corpo, muito peito, pouca cabeça, feições da escultura, feições consideradas mongólicas; corpo de mulata de Sangentelli, “bunda e rabo” chamavam a atenção.



Hoje o que chama a atenção é o abandono dado à Sereia do Major, pois a enorme cauda de peixe, o rabo, desapareceu, destruído pela falta de conservação e fortes correntezas nas marés altas, que, por sinal, é na maré alta, que ela mostra todo o seu esplendor, parecendo estar surfando nas cristas das ondas. Há um detalhe: no período da lua cheia, sua cor branca adquire um prateado fascinante pela beleza invulgar.

O local, que desde a construção da Sereia, passou a ser conhecido como Praia da Sereia, expandiu-se, surgindo inúmeros bares e restaurantes; um dos proprietários pioneiros de um deles foi o “seu” Neco, que sabe muitas histórias do lugar.

Impressiona a freqüência de banhistas à praia nos finais de semana, local que na maré baixa vira um piscinão, propício para se levar crianças. Em datas como 8 de dezembro, dia de Iemanjá, centenas de pessoas costumam jogar suas oferendas homenageando-a, certamente pedindo paz, saúde e felicidade. Que tal? Não apenas estes adeptos de Iemanjá, mas todos nós maceioenses, pedirmos a sensibilidade de quem de direito, para recuperar urgentemente a escultura que dá nome ao lugar, que tem um mirante, como marco, para observá-la, principalmente agora que a sereia está preste a se tornar uma jovem senhora quarentona.

*É médico e escritor


 

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Curiosidade

Treze vezes vencedor do prêmio Notáveis da Cultura Alagoana - Prêmio ESPIA.

"Uma cidade que não tem memória é uma cidade sem alma. E a alma das cidades é sua própria razão de ser. É sua poesia, é seu encanto, é seu acervo. Quem nasce, quem mora, quem adota uma cidade para viver, precisa de história, das referências, dos recantos da cidade, para manter sua própria identidade, para afirmar sua individualidade, para fixar sua municipalidade." Extraído do livro Maceió 180 anos de história 5 de dezembro de 1995.

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