Caderno 2

Por, Bairros de Maceió - 04/05/2019

O mergulho em outras águas

DEPOIS DO PLAY  
Temos uma ampla exposição do compositor Daniel Maia, que se mostra inspirado na maioria das vezes e, em outras, um tanto tímido e quase monomelódico

Publicado sábado, 27, pelo Caderno B! do jornal Gazeta de Alagoas - Por Mácleim   /   NO +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

MERGULHO EM OUTRAS ÁGUAS

          Lá pelos idos de 2007, no curso de jornalismo, eu tinha um colega de classe que volta e meia chegava para as aulas com um violão e um imenso entusiasmo musical, digno de toda juventude encantada pelas possibilidades de novas descobertas, no afã de quais caminhos escolher para seguir. Nessa época, ele era discípulo do reggae e um dos fundadores da banda Resistência, que anos mais tarde lançaria um EP, em 2014. Aos que conheceram o trabalho da banda, agora ficou fácil de saber que estou me referindo ao jovem compositor e músico Daniel Maia.

          Pois bem, de lá pra cá, muita água já rolou! O jovem artista alagoano mudou de trilha sonora, avançou degraus do amadurecimento musical, criou mais musculatura – como diria o velho Beigon –, lançou o seu primeiro álbum, denominado Forró de Primavera, e agora acaba de trazer à luz o seu mais recente trabalho, o álbum O Verde da Lagoa. Aliás, um título bem sugestivo, apesar do visível amadurecimento artístico, do irrequieto Daniel Maia. É com muito prazer que estou tendo a oportunidade de acompanhar a carreira evolutiva de um jovem artista promissor e, de alguma maneira, se as observações no exercício da função crítica puderem contribuir para o fortalecimento de uma trajetória musical repleta de boas perspectivas, então, para mim, o prazer se renova e o objetivo encontra seu objeto fim.

Hibridismo
          Em 2016, quando do show de lançamento do primeiro álbum do Daniel, no Teatro Deodoro, fui escalado para fazer a resenha crítica do espetáculo. Agora, permita-me trazer trechos do que escrevi, à época, pois ali já havia muito do que eu poderia dizer atualmente, para tentar descrever quem é Daniel Maia e o seu trabalho. Sobretudo, porque ainda podem ser contextualizados para o momento atual. Lá, eu escrevi que uma das características dos jovens contemporâneos é terem uma boa dose de hibridismo em suas escolhas e atos, o que os leva a múltiplos protagonismos em diversas áreas de atuação. Se é possível digitar no celular, ouvir música, assistir à TV, jogar vídeo game e tomar banho, tudo ao mesmo tempo, por que não ter uma banda de reggae, gravar um disco de forró e se lançar nesse universo tão peculiar? Foi o que fez Daniel Maia e, dessa vez, concentrou um tanto de tudo isso em um único pacote: o álbum O Verde da Lagoa.
          Escrevi ainda que, hoje em dia, ser verdadeiro implica em várias consequências para o bem e para o mal. Há que se ter a verdade de dentro para fora e expressá-la sem ponderar os riscos. Daniel Maia tem essa verdade, como tônica do seu trabalho. Sua música não se camufla! Até porque, no gênero musical e no hibridismo em que ele ora transita, não existe muito espaço para camuflagens. Nesse seu mais recente álbum, a base está na música regional nordestina; são 12 das 17 faixas do álbum. No entanto, traz pitadas de MPB e até um reggaezinho discreto, na faixa 10, Me Dê Um Sinal (Daniel Maia). Porém, apesar de universos díspares, ele soube aglutiná-los em sonoridade e arranjos, que trazem a sensibilidade e a mão competentíssima do grande músico Van Silva, assinando a produção musical, contrabaixo e vários outros instrumentos.

          Como disse, são 17 faixas que preenchem esse álbum fartamente. Uma verdadeira raridade quantitativa hoje em dia! É evidente, também, que com tamanha quantidade abrem-se flancos para a qualidade escapar aqui e acolá, mas o sortimento é grande! Por outro lado, amplia-se a opção de escolhas, o que, certamente, irá satisfazer e seduzir o fruidor. Todas as faixas, com exceção da última, Tá Quase Tudo Em São Paulo (Tinan Rodrigues), são de autoria de Daniel Maia. Temos, então, uma ampla exposição do compositor, que se mostra inspirado na maioria das vezes e, em outras, um tanto tímido e quase monomelódico, sem ousar arriscar uma maior expansão criativa, em termos de melodia, coisa que toda composição, a princípio, faculta ao compositor.

Extremos
           O álbum começa superbém e bastante festivo, com o galope Associação do Meu Abraço, cuja letra diz: “eu fundei a associação do meu abraço... incomodei com as canções e as palavras... e afoguei as lágrimas numa canção”, num amálgama perfeito entre letra inteligente, música de uma facilidade fecunda para assimilação, e um arranjo criativo com metais e o acordeon do Milla do Acordeon repenicando ritmicamente, prenunciando a importância do seu trabalho ao longo de todo o álbum. Saindo de um extremo ao outro, a música que encerra os trabalhos, apesar de ser deliciosamente astuta, pois tem uma letra criativa, que cita quase todos os bairros importantes de São Paulo, e ter um quê melódico dos rockzinhos da Jovem Guarda, embora em ritmo sincopado entre o xote e o baião, em contrapartida, traz a sonoridade dos forrós de plástico, com aqueles tambores agudamente afinados em viradas irritantes. Certamente, está no disco apenas porque tem a participação do Daniel Maia na gravação original, suponho! Destoa do conjunto da obra, mas é absolutamente compreensível.

          Gostaria de ter espaço para pontuar faixa por faixa, mas é impossível. Portanto, como um panorama geral, quando Daniel Maia aponta para as possibilidades da sua musicalidade nos terreiros da MPB, o faz não com a precisão de quem já descobriu o caminho a ser trilhado, porém, revela-se com um potencial até então desconhecido. É certo que esse álbum, talvez, revele certa indecisão, posto que o seu trabalho anterior caracterizava-o como um novo nome no cenário da música regional nordestina, e esperava-se que O Verde da Lagoa fosse um álbum para ratificar e dar continuidade à escolha de gênero, feita anteriormente pelo artista. Particularmente, de uma forma ou de outra, prefiro ver como uma demonstração de alternativas, bastante natural para um jovem artista em ascensão, que arrisca alguns mergulhos lagunares de vários matizes. Porém, sem perder de vista a imensidão do mar a navegar!
    
SERVIÇO
O Verde da Lagoa, Daniel Maia
Disco físico: à venda na Blast Informática, Panificação Lima Rocha e Gráfica Cetim
Preço: R$ 10
Plataformas digitais: YouTube, Spotify, Deezer e Google Play

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Curiosidade

Treze vezes vencedor do prêmio Notáveis da Cultura Alagoana - Prêmio ESPIA.

"Uma cidade que não tem memória é uma cidade sem alma. E a alma das cidades é sua própria razão de ser. É sua poesia, é seu encanto, é seu acervo. Quem nasce, quem mora, quem adota uma cidade para viver, precisa de história, das referências, dos recantos da cidade, para manter sua própria identidade, para afirmar sua individualidade, para fixar sua municipalidade." Extraído do livro Maceió 180 anos de história 5 de dezembro de 1995.

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